segunda-feira, 30 de abril de 2012

Dedé de cara limpa



Jamylle Mol

Foto: Jamylle Mol

'Uma cambalhota, duas cambalhotas... Bravo! Bravo!'

“Tenho cara de baiano e nome de alemão, mas, já que ninguém é perfeito, nasci em Niterói, no Estado de miséria desse Brasil de meu Deus. Graças a minha mãe que me teve – porque, se ela não tivesse me tido, eu não estaria aqui – integrei uma família grande. Dos meus irmãos, sete não deram pra nada. Eu, nem pra isso dei. 

Acho que os aplausos são o incentivo do artista. No entanto, não consigo me lembrar do primeiro aplauso que recebi: tinha apenas seis meses de idade! Participei de uma peça de teatro – dessas sérias, que fazem o público inteiro se derramar em lágrimas – e, por sorte, acaso ou destino de artista, chorei no momento exato que o personagem deveria chorar! Aplausos pra mim!

Já garoto, fui um palhaço muito sem graça, era o quebra-galho das matinês dos espetáculos da família. Fazia piada, dava cambalhota e ninguém ria. Um dia, entrei em cena e, como num milagre, o público riu de tudo o que eu disse: alguma coisa estava esquisita! ‘Será que estou de ceroulas de fora?’. No fim do espetáculo, surpreso pelo sucesso recém-conquistado, percebi que, no corre-corre para entrar em cena, havia me esquecido de pintar o rosto! Desde então, entendi que sou palhaço sempre, assim mesmo, de cara limpa! Todo mundo na vida nasceu para alguma coisa, não é?

Minha primeira vaia? Ah sim... dessa, me lembro! A dupla Tonico e Tinoco se apresentaria no circo da minha família. Como eles eram muito requisitados em diversos locais, demoraram a chegar. Para enrolar a plateia, já impaciente, me puseram para contar piadas. Na quinta vez que voltei ao palco, não deu outra: uuuuuuuuuuuu. Vaia na certa!

Dei meu primeiro autógrafo para uma moça bonita que vi na feira, fiquei emocionado quando encontrei com ela anos depois... O primeiro autógrafo a gente nunca esquece.

O que? An? Calma, calma, já vou falar dos Trapalhões!

Eu sempre quis fazer cinema e, num desses encontros felizes que a vida nos traz de brinde, conheci o Renato (É! O Aragão! O Didi...). Com ele, fiz mais de setenta filmes que, para nossa surpresa, alcançaram sucesso de bilheteria recorrente. 

Sou lutador de MMA, tenho sangue alemão por transfusão, um filho de 16 anos, sou aposentado como cortador de camisa... TÁ BOM! VOU FALAR DOS TRAPALHÕES! 

Bem, depois de um tempo, eu e o Renato (Já falei que sim, é o Aragão, o Didi... vocês estão com a cabeça onde, heim?) nos juntamos a duas grandes figuras: uma delas, o maior ator brasileiro, o Zacarias. A outra, um comediante nato que, embora afirmasse que o que sabia fazer bem era tocar samba, foi o personagem mais engraçado dos Trapalhões. Cacildes, Mussum! Nunca me considerei um dos Trapalhões, mas, sim, o maior fã que eles têm. 

Como assim nosso tempo já está acabando? Tem outra apresentação na praça? Se é assim... já vou terminar, pode soltar a música que eu vou falando...

‘Uma pirueta, duas piruetas... Bravo! Bravo!’

Quem nasce em Alagoas é sapo! Quem nasce em Natal é Papai Noel! Quem nasce em Mariana? Ah, quem nasce em Mariana é gente boa, bonita e carinhosa!

Lembrem-se: palhaços, humoristas, escadas e demais artistas do humor sempre farão sucesso, sabem por quê? Porque nasce criança todo dia! 

Hoje, com a idade que eu tenho (Já tô terminando, Baiaco! Já tô...), percebo que tudo que eu sou, esse tudo que eu me transformei, devo um pouquinho a mim. O resto, TODO O RESTO, é culpa de vocês! O público é a coisa mais importante entre todas as coisas!

Bom, Mariana, esse não é um adeus... pretendo voltar aqui muitas e muitas vezes. Nada de adeus, mas até breve, até o ano que vem! Até os anos que virão! Eu sempre sou bem recebido, mas aqui... é sensacional!

O QUE? EU ESQUECI DE ME APRESENTAR? 

Sou o Manfried Sant´anna, mas podem me chamar de Dedé!”

E, assim, a Praça da Sé foi se esvaziando aos poucos. Desconfio que tudo – igreja, escadarias, pés de moleque que compõem a rua, lampiões nos postes e o que mais tem por lá – espera ansiosamente o próximo encontro: de palhaços, de alegrias, de emoção, de Dedé Sant’anna.

O sorriso d”O Palhaço”


 Bruna Silveira

Do lado de lá, uma lona, palhaços, músicos, magia, arte, público, vida, ficção, angústia, gargalhadas e uma câmera. Do lado de cá, cadeiras, um teatro vestido de cinema, olhares atentos, ouvidos aguçados, cochichos, risadas, lágrimas, uma tela e aquele eterno cheirinho de pipoca. Lá fora, palco, crianças, fantasia, realidade, ladrilhos pisados por sapatos compridos e redondamente pontudos, cidade colorida por narizes vermelhos, algodão doce, bolas de sabão, rostos-sorrisos... Ah, era o circo! O circo que invadiu Mariana e a deixou assim, a pintou assim, sem medo das tintas, sem pudor das gargalhadas longas, daquelas que fazem até a barriga doer.

Eram três os mundos da noite de domingo na pequena cidade. Um, apesar de ter até quem o dirigisse, aplicava gotas reais de sensibilidade a quem o assistia, peça de outro dos mundos. Mais que uma sessão, “O Palhaço” foi um espetáculo. Mais que um espetáculo, o que vimos foi a vida por trás das cortinas. E se engana quem pensa que ela é sempre marmelada, goiabada e luz. O homem pintado de piadas pensa em futuro, tem sonhos e pode até se magoar.

As cores do picadeiro do “Circo Esperança” se misturaram à escuridão do cinema, camuflaram o que era real e iluminaram o mundo de cá. À flor da pele ficaram os sentidos, que quase podiam tocar os pensamentos de Benjamim, intensamente traduzidos por Selton Mello.

Como todos que cá estavam, ele tinha um sonho. Como todos que lá fora andavam, ele tinha angústia. O palhaço Pangaré, ou o Benjamim, era a graça que as pessoas encontravam para o dia-a-dia. Estranho, e quem mesmo faz o palhaço sorrir?

Ao fugir, ao sentir falta do vermelho vivo, daquele tom amarelado e dos aplausos, ele achou a resposta que procurava. Quem faz o palhaço sorrir é o picadeiro, são as cores, é cada sorriso arrancado de alguém, é cada olhar com admiração, é a sanfona, é a maquiagem, são os sons improvisados da corneta, são as repetidas brincadeiras. Quem faz o palhaço sorrir é a sua vocação para ser o que é, palhaço.

 Os três mundos ontem se abraçaram. Os créditos apareceram e as pessoas com certeza não saíram do SESI do mesmo jeito que entraram. Com certeza aplaudiram aqueles artistas que se apresentavam lá fora com uma vontade diferente. Ao rir deles, agora mais do que simplesmente achar engraçado, pensavam em dom, em alma. 

Porque, afinal de contas, cada um deve fazer o que sabe fazer. O gato bebe leite, o rato come queijo e eles? Ah, eles, sim, são palhaços.

Foto: Di Anna Lourenço

Como é que se diz malabarismo?



 Jamylle Mol


Foto: Jamylle Mol



Foto: Paula Peçanha
Por definição geral, malabarismo é uma das atrações pioneiras do circo tradicional. É a capacidade de manter, no ar, argolas, bolinhas, claves, copos e o que mais a criatividade do artista permitir.  Malabarismo, em essência, é a arte de manipular objetos com destreza. É a habilidade que permite a alguém fazer tanta graça com as coisas a ponto de confundir os olhos do público, que fica sempre atento à dança colorida que os objetos formam no céu.

Para assistir aos malabarismos da dupla “Duo Morales”, as pessoas encheram a Praça Gomes Freire, e, como uma prévia do que viria, se equilibraram também, umas entre as outras, para enxergar o melhor ângulo do espetáculo. Sentados em um dos banquinhos da praça, com direito a uma visão panorâmica do que estava por vir, dois garotinhos –  um deles, com o nariz pintado de vermelho –  reparavam a montagem do cenário, balançando os pés, numa ansiedade dessas urgentes que se tem quando criança de quatro ou cinco anos:

– Eu gosto mesmo é daquele negócio ali, sabe?
– Que negócio?
– Aquele ‘trem’ ali no chão, laranja e amarelo...
– Ah! A sanfona?
– Nããão! Aqueles troços pequenos que parecem uma roda...
– As argolas?
– Chama “argola”?
– Chama, né! É de fazer mabalarismo!
– Fazer o que?
– MA-BA-LA-RIS-MO! É o que os palhaços vão fazer hoje, não sabia?
– Não! O quê que é mabalarismo?
– É assim, oh: o palhaço sai pegando as coisas no chão e joga pro alto! Depois, ele pega tudo de volta, sem deixar cair nadinha! Eu sei fazer também.
– VOCÊ SABE FAZER MABALARISMO?
– Sei.
– Então, me mostra!
“Contagem regressiva! Mil, Novecentos e noventa e nove...”
– Agora, não dá... vai começar o show, olha lá o palhaço contando...
“Novecentos e noventa e oito, um! Respeitáááável público, com vocês: Guga Morales e Dani Morales!”
– Depois do show, você me ensina a fazer mabalarismo?
– Shiiiiiiii! Tô prestando atenção ali, não tá vendo?
– Ensina?
– Vou pensar. Agora, fica quieto!

Argolas para o alto, prato em uma mão, taça de vidro em outra. Bolinhas fazendo uma roda em frente ao malabarista vestido de azul. Claves rodando por cima das cabeças das crianças que acompanhavam o movimento dos objetos sem piscar, para não perder nem um minuto da festa.

Os dois garotinhos, agora, de pé em cima do banco da praça, assistiam a tudo admirados. O menor, de nariz pintado, de vez em quando lançava um olhar espantado para o amigo, como se pensasse “e ele sabe fazer isso tudo também!”...

Fim do show, hora dos agradecimentos:
“Esse foi o show de malabarismo da Duo Morales, no 4º Encontro Internacional de Palhaços...”
– Ele falou “ma-la-ba-ris-mo!”...
– É! Eu já te expliquei o que é mabalarismo, não expliquei?
– Mas não é mabalarismo que fala, o palhaço disse ma-la-ba-ris-mo!
– Olha que eu não te ensino a fazer nada!

O menino não insistiu. A vontade de aprender com o outro devia ser maior que a necessidade de ouvi-lo dizer a palavra de forma correta.

Enquanto o garoto de nariz pintado se distraía com o fim do espetáculo, o menino malabarista puxou a calça da mãe, que estava logo atrás dele:

– Mãe, como é que se diz malabarismo?

Público brasileiro é descadeirado por dois argentinos


Flavia Pupo


Foto: Paula Peçanha


Sobe uma cadeira, sobe duas e sobe três. Uma em cima da outra. Crianças assustadas, olhos brilhando e sorrisos contagiantes. São os palhaços Mercúrio e Cloro, do espetáculo “Os Descaderados”, do grupo de teatro e circo El Indivíduo. Entram no meio das crianças que estavam ali, sentadas no chão, como em uma roda de “ciranda, cirandinha” improvisada. Todos interagem, conversam e brincam como em uma brincadeira de criança. E dessa maneira, eles misturam teatro e circo numa mesma apresentação. 


Foto: Paula Peçanha
E olha o fim do espetáculo! Esse é o pensamento de todos os presentes. É mentira, respeitável público! É nesse momento que eles sobem juntos na cadeira que já não possui todas as madeiras e, dessa vez, com o microfone na mão discursam sobre a valorização do circo de rua, trabalho realizado por eles nas ruas de Belo Horizonte há alguns anos. 

Atrás daquele nariz pintado e um carisma enrustido pelos gestos faciais, eu descobri dois argentinos que não comem alfajor, não são fãs de Maradona, nem de Tango. Vivendo há 17 anos em Belo Horizonte, são quase mineirinhos natos, fãs de pão de queijo e torresmo, com uma simpatia no rosto que foi capaz de fazer com que a plateia aplaudisse de pé a apresentação. O interesse pela arte não é de berço, ela veio aos 18 anos de idade quando já estavam envolvidos com o teatro. A união com o circo veio um pouco depois. Diego Gamarra, conhecido como palhaço Cloro, afirma a importância de eventos como esses para a região: “Além de grande relevância para nós, palhaços, o evento proporciona uma troca de experiências entre as pessoas e os artistas.”

Foto: Paula Peçanha

domingo, 29 de abril de 2012

Hoje é dia de circo, bebê!



Nathália Souza Silva


Fotos: Gustavo Proti

O “Ateliê o Riso In Formação” deu o ar de sua graça e diversão no jardim de Mariana, enchendo com mais alegria e cor a vida das ruas e as almas da cidade. O apresentador foi o marionetista e diretor da Cia Navegante de Marionetes, Cantin Nardi. Ele encenou o interativo italiano Godofredo.

Quem abriu o espetáculo foi o Palhaço Sufoco (Rafael Mourão), dando um show de mágicas, contagiando e prendendo a atenção de todos. Os gestos no ritmo da música, a harmonia deixou a apresentação ainda mais dinâmica. A cada novo número eu me impressionava mais, pois as mágicas eram perfeitas! Ao final, fiquei atônita tentando achar explicações lógicas para as ilusões.

Em seguida, a palhaça Jobinha sai detrás da arquibancada com uma bolsa, passa por entre o público e  conversa embolado, falando sua própria língua. Grávida de papel higiênico, ela me fez sentir o chute do “bebê”, mas o que eu senti foi o chute do pé dela, e forte! A chuva chegou, e infelizmente, o show de palhaçadas teve que ser interrompido. “São Pedro” deu uma trégua, o espetáculo pode continuar. 
Os palhaços ÉLegal (Rodolfo Gular) e Fidirico (Fred Lima) retomam o show: “Chega mais perto gente!” Eles apresentaram parte de um espetáculo da dupla, o “Pele e Osso”, que consiste em entradas clássicas, artista e cenário juntos. Fidirico já esteve em outras edições do evento e ÉLegal estreia sua participação nessa 4° edição. No camarim, ele brinca ao dizer que Fidirico é “velho de guerra”. 



Fechando com chave pintada de ouro e muita diversão, o Circo Alônico de Belo Horizonte apresentou os palhaços Calça Curta (Adi Ferreira) e Cebolinha (Diego Silva). Eles encantaram a plateia com suas acrobacias e saltos mirabolantes. Apresentaram seu próprio espetáculo, “O último copo d’água”, e o adequaram para marcar a estreia do grupo no Encontro.

O CIRCOVOLANTE trouxe para manhã desse domingo (29) muita diversão e cultura circense aos moradores, aos turistas e a todo mundo! Afinal, os espetáculos são gratuitos, o circo é nosso, e “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte!”



A Turma do Biribinha emociona público na praça da Sé



Flávia Pupo

Fotos: Jamylle Mol
     


Praça lotada com gente de todas as idades, gente que chora, que ri, que se envolve. O cenário era daqueles que voltam a uma época em que a praça da cidade do interior de Minas Gerais era o único local que um palhaço tinha para se apresentar. Os curiosos faziam uma roda e ficavam ali mesmo estagnados, em pé ou sentados no chão conseguiam se sentir a vontade como na sala de estar da sua casa.  

Muitas risadas, roupa colorida e brincadeiras com o público. Foi assim a noite do último sábado (28) na praça da Sé as 21h. O palhaço tinha nome e o espetáculo também: A Turma do Biribinha em “O Reencontro de palhaços na Rua é a Alegria do Sol com a Lua”. A turma é formada pelos palhaços Teófanes (Biribinha), Iran (Biriba) e Gutemberg Silveira. O público foi surpreendido pelo uso de instrumentos musicais inusitados, como copos de vidro.

Foi a primeira participação de Biribinha e seu grupo no Encontro de Palhaços de Mariana. Ele que é natural da Bahia, começou no circo desde criança, aos três anos de idade. De família circense, aos 62 anos, o artista ressalta a importância de eventos como esse: “É emocionante estar aqui, pisando no solo que tem um passado com um resgate cultural tão forte e com um público com a energia tão contagiante.” E acrescenta: “O Circovolante está de parabéns pela iniciativa.”

Dedé Santana arranca muitas risadas em noite de autógrafos


Eu nunca me considerei um dos Trapalhões. Eu me considerava um fã dos Trapalhões.”
Dedé Santana


Flávia Pupo



Aconteceu no último sábado (28) ás 19h, no Teatro SESI, um “Bate-papo e noite de autógrafos com Dedé Santana”. O artista falou sobre sua história, sua origem circense e sobre o grupo humorístico “Os Trapalhões”, composto também por Didi, Mussum e Zacarias. 


No bate-papo, Dedé exibiu alguns vídeos sobre sua vida, entre eles, o que dedicou aos amigos “Trapalhões”, com a música “ Amigos do Peito”, letra e música original do próprio grupo. No final, Dedé fez uma rápida apresentação com Celso Magno Hofacker Rossato, conhecido como Bahiaco, dublê de Renato Aragão (Didi), momento em que arrancou várias risadas do público. Depois dos agradecimentos, ressaltou que é um presente para ele estar no evento. “Cada vez que eu venho nessa cidade, eu fico emocionado. Já passei por muitos lugares do Brasil, mas só em Minas Gerais eu tenho esse carinho que tenho por aqui.”


Dedé apresenta o espetáculo 'Show de aniversário de Dedé Santana' neste domingo, às 21h, na Praça da Sé.